A Fantástica Fábrica de Chocolate

A Fantástica Fábrica de Chocolate

A última adaptação do livro de Roald Dahl Charlie and the Chocolate Factory (A Fantástica Fábrica de Chocolate) é parada obrigatória para os fãs de Tim Burton, para quem procura diversão e para as crianças. O livro infanto-juvenil é quase uma fábula, cheio de pequenas lições de moral, de como boas crianças devem se comportar, e como você pode ser a pessoa mais sortuda no mundo e não perceber. O filme também ressalta os pontos fortes do livro, mas vai muito mais além.

A adaptação nas mãos de Tim Burton rendeu um belo filme, fortemente influenciado pela estética expressionista presente em boa parte de seus filmes. Logo na abertura de créditos, o espectador percebe que é um filme do diretor: a música de Danny Elfman dá ritmo à câmera que passeia pela fábrica de visual quase gótico. Por mais “bonitinha” que possa parecer a história, o diretor dá ao longo do filme diversas razões para o espectador adulto se encantar por esta fábula moderna.

O pequeno Charlie e sua famíliaA Fantástica Fábrica de Chocolate é a história do pequeno e muito pobre Charlie Bucket, perfeitamente interpretado pelo ator mirim Freddie Highmore, e de como ele era o menino mais sortudo do mundo. Charlie é uma menino igual aos outros que mora em uma pequena e muito pobre casa no extremo da cidade com seus quatro avós e os pais. Apenas o pai tem um emprego, e o que ganha mal dá para o sustento da família. Todo dia Charlie passa em frente à imensa fábrica de chocolate de Willy Wonka, imaginando o que haverá dentro dela.

Eis que um dia o Wonka, interpretado pelo sempre ótimo Johnny Depp, resolve abrir sua fábrica para visita de apenas 5 crianças em todo o mundo. Os felizardos serão aqueles que encontrarem os 5 bilhetes dourados escondidos em barras de chocolate. Quatro crianças cheias de mimos e mal comportadas encontram os primeiros bilhetes. O último bilhete é encontrado por Charlie, que ganha apenas um chocolate por ano em seu aniversário.

A diversão começa mesmo quando as crianças, cada uma acompanhada de um parente, chegam a fábrica. Desde o show de bonecos até a última criança deixar a fábrica, o filme é povoado de boas piadas feitas não exatamente para as crianças.

Os visitantes na fábrica de chocolatePara o elenco, Burton escolheu alguns de seus atores preferidos e um grupo de crianças muito talentosas. No papel dos pais de Charlie há Helena Bonham Carter (esposa de Burton) e Noah Taylor. David Kelly faz o papel do vovô Joe que acompanha Charlie na visita a fábrica. Annasophia Robb é a Violet Beauregarde, a menina que mastiga chicletes sem parar, Julia Winter é a minada menina milionária Veruca Salt, Jordan Fry é o insuportável menino viciado em vídeo games e tecnologia Mike Teavee, Philip Wiegratz é o pequeno glutão alemão Augustus Gloop, e Freddie Highmore é Charlie. Há também uma pequena participação de Christopher Lee só para deixar o filme ainda mais charmoso.

Depp está sublime em seu papel mais andrógino para o cinema, como o excêntrico milionário dono da fábrica de chocolates, cheio de tiques, com uma risada boba, e um tanto assustadora para alguns. O ator conseguiu traduzir com perfeição o espírito presente no livro, a caricatura de um homem solitário, cheio de manias e extremamente apaixonado pelo o que faz.

Johnny Depp como Willy WonkaE prepare-se para ver uma versão de “Michael Jackson” quando Depp aparecer pela primeira vez na tela, pois a composição da personagem Wonka é composta também pelo figurino exótico, formado por cartola, casado de veludo, luvas roxas, bengala, cabelo channel e maquilagem. Wonka não só anda com o cabelo perfeitamente ajeitado, como ainda usa pó compacto e lápis nos olhos. Mas ao contrário de Jackson, a personagem de Wonka não gosta de crianças e nem de contato com outras pessoas; é uma personagem cheia de fobias.

Todas as personagens são caricaturas, o que pode não agradar a todos, mas casa perfeitamente com toda a mise en scène. Como toda fábula as características são ressaltadas no perfil das personagens passando pelo figurino, falas e interpretação. O cenário serve para ressaltar o não realismo da história. Não é um filme para iludir o espectador, é um filme para fazê-lo acreditar que é tudo é uma ilusão, de que nada dali é verossímil e por isso mesmo aquele mundo fantástico é tão maravilhoso. Por que no fundo cinema é só ilusão, é apenas uma visão da realidade, uma representação dos fatos.

Quem viu a primeira adaptação do livro para as telas com Gene Wilder no papel de Willy Wonka, sentirá falta de algumas piadas, como a das “nevascarangas” (na tradução em português) e provavelmente das músicas. Essa nova versão se mantém mais fiel ao livro de Dahl, começando pelas letras das músicas. As letras das quatro canções que os pequenos Oompa-Loompas cantam para as crianças foram retiradas do próprio livro de Dahl, tendo apenas o acréscimo da música de Elfman. Portanto pare já suas comparações com o original, e os saudosistas que me desculpem, mas essa versão é muito melhor.

Oompa-LoompasNa versão dos anos setenta os gansos que botavam ovos de ouro foram substituídos por adoráveis esquilos treinados para abrir nozes. A cena dos roedores trabalhando sem parar é uma amostra do perfeccionismo do diretor, que misturou imagens de esquilos reais e treinados abrindo nozes e animatronics, robôs que aparecem em filmes como animais. É um filme cheio de efeitos especiais, só que a intenção é destá-los.

Burton aproveitou para acrescentar pequenos trechos no filme explicando o porquê do estranho comportamento de Wonka. Apenas um pouco, porque boa parte de toda a esquisitice da personagem continua como um toque do diretor. Através de flashbacks o espectador fica sabendo um pouco mais do passado do pequeno Wonka. Uma bela idéia, e uma boa desculpa para colocar Christopher Lee como o senhor Wonka.

Outra das sacadas geniais do filme foi colocar todos os pequenos homenzinhos mágicos, os Oompa-Loompas, interpretados pelo mesmo ator: Deep Roy. Se no filme original eles deveriam ser todos iguais, aqui eles realmente o são. Roy se desdobra em vários para fazer as coreografias das músicas, os diversos Oompas da fábrica, mais alguns pequenos papéis surpresa, e pequenas piadas criadas pelo diretor. O efeito visual é hilário.

Mais Oompa-LoompasTim Burton aproveita para criar piadas com inusitadas situações, e com citações a outros filmes, também criadas principalmente pelos Oompa-Loompas. Há balés aquáticos super coreografados, como os primeiros musicais dos anos trinta, menção aos filmes clássicos sobre o Império Romano com galés conduzidas por escravos, e a obra prima de Kubrick 2001- Uma Odisséia no Espaço. A referência ao filme é tão forte, que dura uma seqüência toda na fábrica de chocolate: impossível não perceber. Aliás, só essa parte já valeria assistí-lo.

Como segue a história do livro, o filme é cheio de valores morais e sociais, com um final “bonitinho” e cheio de pequenas lições: não é bom ser uma criança mal educada; a família é a base de tudo; as crianças boazinhas são mais felizes. Concordando ou não com as lições de moral, é um belo filme para o público de todas as idades.

Não é o melhor de Tim Burton, mas é Tim Burton puro, do começo ao fim: desde a música, passando pelos cenários, as piadas e as personagens não há como negar. O filme é um deleite visual em todos os sentidos, porque não há como negar que os doces da fábrica são também dar água na boca. Por isso, coloque os seus preconceitos (se os tiver) de lado, de que um livro infantil não pode ser um bom filme para o público adulto, e divirta-se muito com A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Dentro do elevador de vidro

Texto originalmente publicado no Azul Calcinha em 2005. – Imagens: copyright © 2005 Warner Bros.

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