El Greco

el greco 3 El Greco

Quando cinema e arte se juntam, um filme torna-se quase irresistível para mim. Mesmo que a narrativa não seja tão bem elaborada quanto imaginava, ainda há a biografia, sempre adaptada, do artista e as pinturas, esculturas, suas criações. Felizmente já vi bons resultados na tela como Sede Viver de Vincent Minelli, Moulin Rouge de John Huston, Moça com brinco de pérola de Peter Webber, que apesar de não ser sublime tem uma excelente fotografia, e o ótimo Camille Claudel de Bruno Nuytten, que contém uma das melhores atuações de Isabelle Adjani para o cinema. Só ela já valeria o filme.

Com a lembrança de bons filmes sobre arte, mas sobretudo uma direção de arte e fotografia mais elaboradas, uma vez que as comparações com as obras originais surgirão, fui ver El Greco (2007), o último filme do diretor grego Iannis Smaragdis. El Greco faz um trajeto da do pintor grego Doménikos Theotokópoulos, conhecido como El Greco desde suas primeiras pinturas famosas em Creta, quando conhece sua primeira musa, até Toledo e seu interrogatório pela Inquisição Espanhola.

O filme de Smaragdis é baseado no livro de Dimitris Siatopoulos sobre o pintor, e deixa transparecer claramente o orgulho de ser grego pelo diretor através da personagem de El Greco, que assinava todos os seus quadros com seu nome grego completo, e das cenas em que relata as lutas de libertação do domínio romano. Só que o filme vai mais longe e acaba colocando a figura do pintor quase como um santo.

El Greco é contado através de inserções de flash-back: na noite anterior a que acha que será morto o pintor, interpretado pelo inglês Nick Ashdon, começa a narrar sua história, no dia em que conhece Francesca (Dimitra Matsouka), sua primeira musa. Francesca vira sua amante, e acreditando em seu talento o convencerá a ir para a Veneza, para desenvolver sua técnica. É no atelier de Ticiano que Doménikos desenvolve-se na pintura e começa a produzir pinturas mais autorais.

A partir desse ponto a história muda de viés e passa a ser tecida pela relação do pintor e um jovem padre espanhol que se vê fascinado com as obras, Niño de Guevara (Juan Diego Botto). Será de Guevara que convencerá El Greco a ir para a Espanha, também motivado com a separação de Francesca. Nesse ponto o filme começa a derrapar. Comparações sobre a religião e a mitologia começam a surgir. Cenas que colocam o pintor como protegido por anjos e iluminado aparecem para reforçar a visão angelical dele.

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Não há como separar a obra do pintor da terrível inquisição espanhola, que começa a ganhar força no decorrer do filme, e que foi a mais brutal da história. No entanto, o filme passa a visão de que há os bons e os maus, de que El Greco é um santo enviado e Niño de Guevara vira o demônio na figura do grande inquisidor, como referência direta a uma de suas pinturas mais famosas retratando um cardeal.

Eu nunca defenderia o que a igreja católica fez naquela época, só que as imagens e o texto enfatizam tanto esse ponto de vista, de que apenas um está errado, que não há como defender o maniqueísmo que vai invadindo o filme. A crítica à inquisição e ao uso de poder desenfreado do qual a igreja fez uso na época acaba não funcionando e o efeito vira um tiro no pé.

O problema não está na visão que o pintor tem da Inquisição – lembre-se de que o filme de certa maneira é narrado do ponto dele. Mas da forma como o filme apresenta o pintor: com o dom de transformar pessoas em santos e abençoado por Deus, com direito a imagens quase literais disso. E o filme continua se levando a sério apesar disso. Aí está o erro maior.

Para não dizer que não conseguir achar nada de bom, além da história sobre a vida do pintor, digo que há algumas sequências interessantes. Nelas se vê um belo trabalho de direção de fotografia e arte, recriando a atmosfera vista nas pintura de Doménikos, outras vezes aumentando a dramaticidade da cena. Pena que não é homogêneo e não se encaixa no todo do filme.

El Greco será exibido em quatro sessões na 32ª Mostra Internacional de Cinema.

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