O frescor do filmes franceses na 31ª Mostra

Em Paris

Todos os anos a Mostra traz uma grande amostra das produções franceses e co-produzidas na França. Eu, como fã incondicional do cinema francês, fico imensamente grata pela contribuição delas. Felizmente boa parte das produções acaba estreando nas nossas telas, principalmente em São Paulo. Esse ano, como parece, não será diferente.

Entre as dezenas de atrações vindas da França, incluindo duas retrospectivas dedicadas a diretores franceses, Claude Lelouch e Jean Paul Civeyrac, há vários filmes que tentam não ir tão a fundo em questões filosóficas, tão comum aos franceses, ou debates sociais. São filmes frescos, perfeitos para um começo de tarde, filmes que, na minha definição favorita, nos fazem sair contentes do cinema.

O tipo de alegria que se obtém somente através de bons filmes, leves, que nos envolvem por quase duas horas e que recomendaríamos, mesmo não sendo obras primas, ou um daqueles filmes memoráveis dos quais guardamos cenas para sempre em nossas memórias.

Eis uma pequena seleção com quatro filmes que vi, e recomendo para ver agora ou mesmo depois. Os filmes já tem distribuição garantida depois da Mostra.

Em Paris

Em Paris (Dans Paris) é um filme absurdamente francês, no melhor estilo Nouvelle Vague. Dirigido por Christophe Honoré, o irreverente filme começa com o narrador levantando-se da cama onde mais dois dormem, caminhando pelo apartamento, e apresentando a história, com a torre Eiffel ao fundo emoldurando a cena. Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores) fala de seu irmão Paul (Romain Duris) que está em depressão e as razões que o fizeram ficar assim e vir passar o Natal com o pai e irmão. Apesar o tema, o filme mantém o alto astral durante sua maior parte.

Em Paris transpira Truffaut em diversas cenas ao longo do filme: quando Jonathan e sua namorada estão na cama, quando os dois correm pelo parque como duas crianças, e mesmo quando os casais brigam. Há também referências ao cinema de Jacques Demy, em uma das mais belas cenas do filme, quando Paul e sua ex-mulher Alice (Alice Butaud) cantam um diálogo.

A trilha sonora do filme também é introduzida como uma personagem, alternando a alegria de Jonathan associada ao jazz, e as memórias e bucolismo de Paul com músicas em inglês. Guy Marchand está perfeito, como o pai rabugento e preocupado, mas com uma certa dificuldade para lidar com os filhos. Destaque para a belíssima cantora francesa Héléna Noguerra que aparece como uma garota numa scooter.

O filme acaba fazendo dois paralelos entre o amor que causa conflitos e sofrimento, e o sexo que traz felicidade instantânea e satisfaz aos jovens. É um filme com uma visão positiva, pois apesar de tudo ainda há esperança, e as coisas sempre podem melhorar com o apoio de nossos entes queridos.

Meu Melhor Amigo

Meu Melhor Amigo

Amizades devem ser cultivadas. Essa é uma das premissas de Meu Melhor Amigo (Mon Meilleur Ami), último filme de Patrice Leconte. Estrelado por Daniel Auteuil, que sempre é uma ótima razão para se ver um filme, o filme conta a história de François, um marchand extremamente apegado a objetos. Em seu aniversário sua sócia, Catherine (Julie Gayet), diz que ele não tem amigos, e todos presente na mesa concordam.

Indignado com tal observação, François faz uma aposta com Catherine, para apresentar em dez dias seu melhor amigo. Ele parte então em busca de seu melhor amigo através de uma lista, mas aos poucos vai descobrindo que não cultivou qualquer amizade. Mesmo com sua própria filha ele não consegue manter uma relação próxima.

O desespero aumenta e ele começa a procurar cursos, livros e perguntar as pessoas na rua sobre como fazer amizades. Para não perder a aposta, que é a um vaso grego caríssimo que adquiriu, e que curiosamente simboliza a amizade, François pede a ajuda do taxista Bruno (Dany Boon), que consegue facilmente interagir com outros. Aos poucos, mesmo sem perceber, começa a nascer a amizade entre essas pessoas tão diferentes.

Mesmo não sendo sua melhor comédia, Leconte fez uma comédia genial, sobre a dificuldade de se relacionar com os outros, amizades e os comportamentos obsessivos das pessoas, que acabam atrapalhando relações. Impossível não rir das cenas protagonizadas por Auteuil tentando fazer amigos ou descobrindo como se faz. Meu Melhor Amigo é um ótimo filme para começar o dia, para ver e rever (futuramente).

Crimes de Autor

Crimes de Autor

Em seu quadragésimo primeiro filme, o diretor Claude Lelouch mostra que não perdeu a mão e continua sabendo como manter o espectador atento. Crimes de Autor (Roman de Gare) é uma história entrelaçada por um assassino serial que fugiu da prisão, um marido que abandona a esposa e filhos sem deixar recado, um assassinato e um escritor em busca de uma história.

O filme começa com Judith Ralitzer (Fanny Ardant) sendo interrogada e falando sobre a inspiração de seu livro em flash-back. Pouco depois Dominique Pinon aparece como um homem misterioso, dirigindo numa noite numa noite chuvosa, e que tem seu destino cruzado Huguette, interpretada pela talentosa Audrey Dana. Huguette foi abandonada a caminho da casa dos pais pelo noivo, depois de uma briga, e esse estranho insiste em dar-lhe carona.

Crimes de Autor alterna momentos de suspense, com momentos de humor pontuais. Lelouch consegue ocultar o mistério por boa parte do filme, mas nem é exatamente ele o mais interessante, e sim a história contada dentro do livro, dentro do filme e como ela é construída. Criando um mistério dentro de outro, adicionando bom ótimas atuações, um pouco de romance, uma pitada de crime e o fresco das canções de Gilbert Bécaud, o filme consegue nos deixar felizes até o final.

O diretor aproveita para fazer auto-referências, através de imagens de dentro de um carro em alta velocidade. Nas sessões da Mostra, será exibido o curta Rendez-vous antes de Crimes de Autor, ao qual ele faz referência. O curta é realmente impressionante: um plano seqüência de nove minutos nas ruas de Paris de um carro em alta velocidade às 5h30 da manhã. Sem cortes e sem paradas.

Menção Honrosa: Lady Chatterley

Lady Chatterley

Lady Chatterley é o único filme dessa lista em que o frescor aparece apenas em alguns momentos. Ao contrário dos outros, é um filme intenso, sufocante por vezes e ainda sublime. O filme merece cada um dos prêmios recebidos, tanto pelo desempenho estupendo dos atores principais, principalmente o de Marina Hands como Lady Chatterley, como pela direção impecável de Pascale Ferran. Ela foi a primeira mulher a adaptar o clássico romance erótico de D.H. Lawrence, na verdade a segunda e não final versão deles, para as telas e talvez por isso o filme consiga mostrar tão bem o descoberta do prazer sem cair no vulgar.

A história, já bem conhecida de todos, apresenta Lady Chatterley como a boa esposa que cuida do marido, que ao cuidar da guerra está inválido e não pode mais satisfazê-la. Sua vida aos poucos torna-se uma seqüência de fatos tediosos, sem nenhum sentido e sua vontade de viver também se esvai. Por recomendação médica ela começa a mudar seu modo de pensar e uma enfermeira começa a cuidar de seu marido.

Com tempo livre, ela começa a apreciar a beleza na natureza, descobrindo o prazer visual, e depois seu próprio corpo e o prazer. Atraída pelo corpo e pela relação próxima com que estabelece com Parkin (Jean-Louis Coullo’ch) o guarda caça da propriedade, eles começam um caso.

Através de seis cenas de sexo extremamente bem elaboradas, Ferran mostra o desenvolvimento dessa mulher, que passa de uma mulher recatada, insegura e frágil, para uma mulher voluptuosa, forte e independente. O sexo os move de início, mas é o amor que nasce dele que os mantém nessa relação. É através do sexo que ela toma conhecimento de si mesma, que começa a se conhecer e agir de forma livre.

Com cenas belíssimas, Lady Chatterley é um filme de atmosfera: ele nos transfere para aquele universo através de longas cenas, pouquíssimos diálogos, sem subterfúgios e com muitos detalhes. Você acaba sentindo o que a personagem sente através dessa elabora construção de planos, enquadramentos e das interpretações, que substituem os diálogos.

O frescor aparece quando a personagem se liberta de suas amarras psicológicas e começa a desfrutar do prazer de seus instintos: o filme se abre, respira, assim como a personagem. Um clássico para ser visto no cinema.

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