O primeiro domingo da 32ª Mostra

Feliz Natal

Essa é a 9ª vez que participo da Mostra e eu nunca tive problema algum com as minhas credenciais. Até ontem. Quem acompanha o Twitter do cinematógrafo viu a minha mensagem sobre o assunto. Com uma mistura de pressa e com sono eu consegui perder a minha credencial. Ninguém sabia me informar ao certo o que fazer no caso da perda dela, mas eu concluí que devia ir até a central. Fui com o RG e os ingressos que já havia retirado e fiz uma nova. Tive também que retirar todos os ingressos, incluindo os para o mesmo dia. Ainda bem que quase tudo deu certo, pois acabei perdendo uma sessão no meio.

Para abrir o dia fui ver Feliz Natal, filme de estréia de Selton Mello na direção. A história começa na noite de Natal, quando Caio, há muito tempo sem contato com a família, retorna para rever os parentes. Feliz Natal é tudo o que você não gostaria de ver numa noite de natal, mas às vezes vê. É um filme sobre problemas famílias, a dor da perda, os conflitos não resolvidos e a dificuldade em reconhecer os próprios problemas e tentar mudar. A família de Caio, é, como diz a avó no filme, uma família desestruturada, mas as coisas só pioram, parecendo o Natal o estopim.

Com pouquíssimos planos abertos o filme cria uma atmosfera claustrofóbica, e mesmo que esse tenha sido o objetivo, cansa. Há também uma série de diálogos que parecem ter sido colocados na boca dos atores, soando artificial e outras vezes desnecessários. Isso sem falar em alguns atores que parecem que estão atuando para novela, o que para mim é o pior que pode acontecer a um filme. Paro de tentar acreditar na história. Apesar disso tudo não é um filme ruim. Devo dizer que gostei muito mais das cenas sem diálogos, apenas explorando as personagens, suas expressões e a atmosfera. Enfim, acho que continuo preferindo o Selton Mello atuando.

Tony Manero

Pude conferir também Tony Manero, uma co-produção Chile-Brasil dirigida por Pablo Larraín. Durante a ditadura de Pinochet, Raúl Peralta é um homem na faixa dos 50 anos vê-se obcecado em ganhar um concurso de imitação de Tony Manero, personagem de John Travolta em Os embalos de sábado à noite. Para alcançar seu objetivo Raúl não mede esforços, nem que para isso tenha que matar algumas pessoas pelo caminho.

Tony Manero apresenta através de pequenas cenas e diálogos a dura realidade da ditadura chilena de modo cru, sem chegar perto do que realmente foi. Isso não é de modo alguma uma falha no filme, são apenas cenas para nos situar no momento político e econômico, e deixar mais claras algumas das atitudes de Raúl, que é o tema central, sem justificar. É um filme simples, bem estruturado, com momentos de choque visual, e até de descontração. Não há como evitar rir das cenas com John Travolta ou algumas das imitações. É tudo muito kitsch. Mas nada disso seria tão efetivo sem a brilhante atuação de Alfredo Castro como o frio psicopata Raúl.

Fechei a noite com uma sessão lotada do último filme do diretor russo Alexander Sokurov: Alexandra. Continuando fiel a seu estilo, Sokurov vai aos poucos apresentando as personagens, sem pressa, para que o espectador tenha tempo de refletir sobre os diálogos e explorar as personagens visualmente. Em Alexandra o diretor reflete sobre a guerra, ou as guerras em geral, as razões que levam países vizinhos e por vezes amigos a brigar, a vida dos soldados e a bondade que ainda resta nas pessoas, mesmo por seus inimigos.

É através de Alexandra, uma avó que vai visitar o neto, um capitão do exército russo em serviço, que a guerra é visita. São suas perguntas aos soldados e aos habitantes do país em guerra que ela visita, a Chechênia, que vão aos poucos construindo os argumentos da defesa de Sokurov. Alexandra entra na lista do melhores filmes do diretor, e por enquanto o filme mais poético que vi na 32ª Mostra.

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