O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna)

O Silêncio de Lorna (2008)

O Silêncio de Lorna (2008) mostra mais uma vez que os irmãos Dardenne, Luc e Jean-Pierre, continuam firmes a sua cinematografia como poucos cineastas fizeram. O filme que será exibido na 32ª Mostra Internacional de Cinema e entra em circuito dia 7 de novembro, assim como os filmes anteriores dos irmãos belga, mostra como algumas pessoas podem mostra o melhor delas mesmas nas piores situações. São filmes humanos, fortes, para serem sentidos diretamente, sem a influências musicais, como acontece na grande parte dos filmes.

Para eles o roteiro é a base do filme. É o roteiro que irá conduzir magistrais atuações e inserir os espectadores naquele universo de situações difíceis, para que acreditem nessas facetas tão humanas e ao mesmo tempo tão cruéis. A realidade dura de seus filmes aos poucos vai sendo absorvida pela platéia, quando começamos a ver quão instintivos e insensatos o ser humano pode ser. O filme acaba não sendo apenas um filme, mas a vertente de uma realidade.

Em O Silêncio de Lorna, Lorna, interpretada pela atriz kosovar Arta Dobroshi, é uma jovem albanesa que vive na Bélgica e tem planos de abrir uma lanchonete com o namorado. Só que para isso eles precisam de dinheiro. Lorna então decide participar de um plano cruel criado por Fabio (Fabrizio Rongione) : ela deve se casar com viciado Claudy (Jérémie Renier) para obter a cidadania Belga, para que depois Claudy seja facilmente assassinado e Lorna possa se casar novamente pelo dinheiro, dessa vez com um mafioso russo que está em busca da cidadania belga. Esse é o trato e Lorna sabe desde o início da situação.

Os irmãos chamaram mais uma vez o ator, também belga, Jérémie Renier para o difícil papel de Claudy. Renier já havia trabalhado com os Dardenne em seu filme anterior A criança, na qual sua excelente atuação rendeu o prêmio de melhor ator no Joseph Plateau Awards – uma versão belga do Globo de Ouro – e uma indicação como melhor ator no Festival de Cannes.

O Silêncio de Lorna

Com muitos planos fechados o filme começa criando a atmosfera de sufocamento na qual Lorna vive. Todos os dias ela têm que voltar para o aparteamento no qual vive com seu marido, que obstante não amar, despreza. Lorna é fria com Claudy, pois têm plena consciência do casamento por dinheiro, e de que ele precisa morrer para que ela possa continuar sua vida, seus planos. Para evitar contato e consequentemente criar laços com Claudy, Lorna come na rua, chega no apartamento apenas na hora de ir dormir e evitar falar com ele.

Mas algo que eles não planejavam acontece: Claudy decide abandonar as drogas, complicando seus planos, uma vez que eles esperavam que logo ele morresse de overdose ou que fosse fácil fazer parecer que ele tivesse morrido de overdose. Claudy começa a mostrar seu desespero para largar as drogas, pedindo ajuda para Lorna, que somente aos poucos começa a transpassar sua indiferença por ele. A atenção que Claudy demanda de Lorna passa a ser uma mistura de busca de atenção, ajuda e afeto. De alguma forma, ele transpassa que se apegou a Lorna, atrapalhando as coisas.

O filme vai além das análises das relações humanas. Ele analisa os problemas cada vez mais crescentes do tráfico e das imigrações ilegais do leste europeu. São pessoas sem perspectivas e sua terra natal que vêem na comunidade européia uma saída para seus problemas. De certo modo o filme questiona do que as pessoas são capazes para saírem da pobreza na qual vivem.

São em pequenos gestos e atitudes, com cenas mais longas e elaboradas que os Dardenne conseguem passar as “reais” emoções das personagens, sem precisar acrescentar diálogos cheios de explicações. O roteiro bem escrito lhes rendeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes desse ano. O filme também foi indicado à Palma de Ouro. Mais um belo filme e que com certeza merece ser visto, ainda que não alcance o brilho de A criança.

Obs.: antes da estréia no dia 7 o filme terá cinco sessões na 32ª Mostra.

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