Olhar selvagem – O Cinema dos Surrealistas

Ensaio de um crime - poster O ano passado em  Marienbad - poster

Pouco se conhece sobre o cinema surrealista no Brasil. O primeiro nome que vem à cabeça das pessoas é o do cineasta catalão Luis Buñuel, mas há muito além de dele no cinema surrealista. Meus favoritos são os franceses e de preferência mudos, quando o surrealismo estava despontando junto com as experiências cinematográficas. René Clair, Jean Vigo e Jean Cocteau são alguns dos quais recomendo pela beleza, pelo descompromisso e pela ousadia de dialogar com outras linguagens que não a cinematográfica nos filmes.

De 26 de setembro a 14 de outubro de 2007 a Cinemateca Brasileira realiza a mostra Olhar selvagem – O Cinema dos Surrealistas, exibindo o que há além de Buñuel e dos surrealistas franceses da década de 1920. Organizada por Sérgio Lima, que prepara a publicação de Olhar selvagem – O surrealismo vai ao cinema., a mostra conta com 14 grandes filmes divididos e sete temas.

O SURREALISMO E A REVOLTA

Zero de comportamento (Zéro de conduite), de Jean Vigo
Mortalmente perigosa (Gun Crazy /Deadly is the female), de Joseph H. Lewis

Da mesma maneira que se faz uma aproximação quase imediata entre a revolta dos estudantes do Ateneu (Raúl Pompéia) com a do Zero de Conduta, pode-se relacionar de pronto suas violências com o episódio explosivo do final dos Cantos de Maldoror (Lautréamont) e com o corrosivo absoluto de Gun Crazy. Num temos os meninos do internato do liceu e noutro adolescentes da cidade grande. Porém em ambos a denúncia é a mesma: o des-encanto do mundo. Em ambos, o cinema faz ver a subversão. (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E A SUBVERSÃO

A regra do jogo (La Règle du jeu), de Jean Renoir
A comilança (La Grande Bouffe), de Marco Ferreri

Nos dois filmes temos a mesma escolha de um “lugar” representativo do poder senhorial. Nos dois casos temos também a organização de um jogo (de morte) em busca de singularidades, sempre a partir das recordações que cruzam o campo minado desta sociedade ou grupo. Num caso, La règle du jeu, temos a caçada rara dos caprichos e olhares que chega ao crime, e noutro, a comilança, a devoração desbragada bárbara e antropofágica, que chega ao transe numa espécie de sacríficio ou suicídio sexual. E que lembra, não por acaso, Sade e os 120 Dias de Sodoma. (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E O HUMOR NEGRO

Monsieur Verdoux, de Charles Chaplin
Ensaio de um crime (La vida criminal de Archibaldo de la Cruz), de Luis Buñuel

Ambos os filmes são perturbadores do usual. Incomodam. Sobretudo por se centrarem no desejo de destruição (da beleza). Característico por ser atitude limítrofe entre razão e insanidade, o humor negro aqui é decorrente da construção dos mesmos mecanismos que Thomas De Quincey chamou de “assassinato considerado como uma das belas artes”. (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E O AMOR LOUCO

Pandora (Pandora and the Flying Dutchman), de Albert Lewin
A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora), de G.W. Pabst

A centelha da imagem nova, subjacente à beleza convulsiva e ao acaso-objetivo dos surrealistas, que permitiu conjugar Lulu com Jack, o estripador (“espírito da Terra”/ Wedekind com “caixa de Pandora”/ Berg), é a mesma que permitiria depois relacionar Pandora do mito grego com o Holandês Voador da lenda do romantismo nórdico. Expostas e reveladas nestes filmes, verdadeiras deusas da fascinação, Louise Brooks e Ava Gardner. (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E O SONHO

O vento (The Wind), de Victor Sjöström
Os inocentes (The Innocents), de Jack Clayton

Essa exaltação tão pouco habitual entre o vórtice do natural, o vento, e a vertigem do psíquico e suas sombras, os outros, remete a uma singular, obscura exacerbação, não isenta de um cunho erótico que as tinge e impregna fortemente. Nos dois casos a presença estranha, perturbadora e ameaçante, que dela emana como num sonho, é praticamente um terceiro personagem (que povoa o invisível). (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E O INCONSCIENTE

O inquilino (Le locataire), de Roman Polanski
O alucinado (El), de Luis Buñuel

Polanski apóia seu jogo de espelhos no próprio estranhamento que emana do “lugar” – essa singular convergência de forças e coincidências, pois lugar de acasos-objetivos: o “lugar” é que faz as situações. O apartamento é, no caso, a singular moradia com vida própria que distila seus impulsos em O inquilino. É a visão herética e quase sensual da cerimônia litúrgica do lava-pés católico, da abertura de El em plano-seqüência, que permite Buñuel ligar e fazer a passagem fetichista pelos pés das muitas pessoas presentes até se deparar com o salto-alto de uma desconhecida: “a eleita. É ela trazendo à luz a paranóia do personagem desmedido, excessivo, preso à sua busca erótica. (Sérgio Lima)

O SURREALISMO E O MITO

O ano passado em Marienbad (L’annèe dernière à Marienbad), de Alain Resnais
Sangue de pantera (Cat People), de Jacques Tourner

São dois exemplos máximos da exaltação do feminino e seu feitiço. Em Cat People, um singular “enfeitiçar” de magia-negra – em transe felino (“animal da noite”) – logo seguido daquele de magia-branca – Marienbad – em hieróglifo ou figura totêmica (“ave da fascinação”). Imagens por excelência do arrebatamento. (Sérgio Lima)

Um aviso: uma parte dos filmes será exibida em DVD e alguns em versão original sem legendas. Confira a programação completa e mais informações no site da Cinemateca Brasileira antes de se aventura. Embora assistir a qualquer um desses filmes, mesmo entendendo apenas parte das legendas, já vale a pena.

Cat people - poster A regra do jogo - poster

Os quatro filmes clássicos, cujos cartazes ilustram essa entrada, serão exibidos no evento. Para ir se preparando, veja alguns filmes e curtas surrealistas no Videos with Bibi.

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