Os Irmãos Grimm

Os Irmãos Grimm poster

Quem é que nunca ouviu a história de Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel ou João e o Pé de Feijão? Essas são algumas das fábulas que fazem parte do nosso imaginário. São histórias que nossas mães ouviram de suas mães, ou leram em livros, e nos passaram. Escritas há quase duzentos anos pelos irmãos Wilhelm e Jacob Grimm, elas continuam vivas em nossa cultura e são eles o tema do último filme de Terry Gilliam lançado por aqui: Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm).

Para a alegria de muitos fãs do diretor, finalmente, depois de muito tempo sem dar o ar da graça, ele voltou às nossas telas com um filme de encher os olhos. Alguns não se lembram dos trabalhos de Gilliam como diretor no cinema, mas com certeza já tiveram o prazer de vê-lo na famosa série inglesa Monty Python e o Circo Voador (Monthy Python’s Flying Circus) ou nos filmes que dela derivaram: Monty Python e o Cálice Sagrado, Monty Python e o Segredo da Vida – meu favorito – e A vida de Brian.

O seriado inglês era marcado pelo humor non sense, às vezes negro e ácido, situações absurdas, piadas sobre história, atuações farsescas e humor inglês sobre ingleses, e muitas dessas características acompanharam Gillian em sua carreira como diretor e escritor no cinema. O diretor foi responsável por excelentes obras cinematográficas como Os Doze Macacos e Brazil – O Filme, que é com certeza suas melhor obra.

Heath Ledger e Matt DamonGilliam não se aventurava na direção desde Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas), de 1998. Este é um de seus filmes mais alucinantes, baseado no romance de Hunter S. Thompson, com Johnny Depp e Benício Del Toro no elenco. Nesse meio em que sumiu das telas, ele esteve envolvido em vários projetos como o filme que virou lenda The Man Who Killed Don Quixote e que infelizmente teve a produção interrompida. Ele fez ainda Tideland, lançado depois de Os Irmãos Grimm, mas que acabou não estreando nos cinemas brasileiros.

O mundo do fantástico e do absurdo que povoou seus trabalhos anteriores vem com toda a força em Os irmãos Grimm. Entre seguir o caminho da fábula ou da veracidade histórica, o filme opta pela junção de ambos, explorando os limites muitas vezes sutis existentes entre fantasia e realidade. Aos poucos os personagens reais integram-se ao mundo da fantasia e do extraordinário, não deixando claro qual parte do que achamos que pode ser real é realmente baseado em fatos reais da vida da famosa dupla de contadores de histórias. Essa é parte da graça do filme, e de seus problemas para agradar grande parte do público.

Boa parte dos espectadores que buscam a história da famosa dupla de escritores alemães de contos de fada e fábulas no filme, acabarão desapontados ao encontrar uma pequena parte da história. Alguns buscarão um filme de Terry Gilliam onde tudo é possível, onde a beleza está no absurdo. Esses últimos terão um pouco mais sorte. Mesmo não sendo o filme mais brilhante do diretor, ele tem seu charme ao explorar nosso imaginário e a questão histórica da qual originaram as fábulas. O filme é, no fim das contas, um conto de fadas sobre a vida dos irmãos Grimm.

Matt Damon e Monica BellucciO roteiro escrito por Ehren Kruger, de A Chave Mestra, deixa claro que Gillian deu muitos palpites na versão final. O dedo do diretor aparece através dos elementos: personagens farsescos, citações históricas, críticas sociais, que como sempre aparecem implícitas, e muito humor. O universo fantástico dessa vez sai diretamente dos contos de fadas, que por sua vez se originaram no folclore. Misturando suspense, terror, humor negro, romance e fantasia, o roteiro vai aos poucos fazendo menções aos contos mais famosos dos Grimm: Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Rapunzel, João e o Pé de Feijão, Branca de Neve, Cinderela, o Príncipe Sapo, a Princesa e a Ervilha, e a Bela Adormecida.

A história se passa durante a era napoleônica onde, os contadores de histórias Will e Jake Grimm, respectivamente interpretados por Matt Damon e Heath Ledger, vivem de trapaças. Os irmãos, aproveitando-se da ingenuidade das crendices populares, percorrem diversos lugares com a fama de heróis que eliminam monstros, bruxas, gigantes e demônios. Ao mesmo tempo em que criam teatrinhos para enganar as pessoas, Jake vai anotando todas essas lendas, que as pessoas contam, em seu caderno. Tudo vai bem entre até que os franceses descobrem o esquema da dupla. Para não serem punidos, eles devem então resolver o sumiço de várias donzelas na pequena vila alemã de Marbaden. A partir daí eles se deparam com o universo assustador dos contos de fadas.

Will é o lado prático, astuto, cínico e mulherengo da dupla; Jake é o sonhador que quer viver no mundo encantado das histórias que ouve e no fundo sonha com um grande romance. Apesar de seus ideais diferentes, os dois acabam apaixonados pela mesma jovem, a bela, inteligente e independente Angelika (Lena Headey). E como toda história de fadas que se preze há também um vilão na história. Aliás, mais de um. Há o sádico italiano Cavaldi (Peter Stormare), o general francês Dalatombe (Jonathan Pryce) e a belíssima Rainha Má, interpretada por Monica Bellucci.

Os irmãos Grimm explora a magia existente nos contos de fadas, que nada mais são do que representações dos medos internos da cada um. A eterna batalha entre o bem e o mal tão presente nas fábulas, é uma representação lúdica, e cheia de moral, de como devemos fazer nossas escolhas, por qual caminho devemos seguir para encontrarmos o final feliz. As histórias de terror e suspense psicológico dos contos ficam tão marcadas em nós porque mexem com os nossos medos sem que precisemos encará-los. Só que no filme é exatamente o contrário que acontece com a dupla, que pare superar os obstáculos devem enfrentar seus temores frente à frente.

Lena Headey como AngelikaUm dos pontos altos é a re-criação do universo sombrio dos contos de fadas. Fez se a união da descrição da atmosfera dos contos e do retrato histórico de uma Europa devastada por guerras, cheia de povoados pobres, remanescentes do período medieval onde muitos ainda acreditavam nas histórias de monstros e bruxas. A cenografia apresenta o registro visual da Europa no século XIX com alguns elementos que só existem nas histórias, trabalhando o artístico e o naturalista. O restante da atmosfera sombria, quase expressionista do filme, vem através da fotografia, de alguns personagens, de efeitos visuais e da edição.

É tudo muito bonito, muito divertido, interessante, mas ainda assim desaponta. O filme oscila entre momentos sublimes e cenas razoáveis. Algumas interpretações vão do caricato e o natural, outras são tão caricatas de destoam dos outros personagens em algumas cenas, quebrando o ritmo em várias partes. Há ainda o problema da fusão entre o real e o sobrenatural: o espectador deve ir preparado para aceitar o absurdo, porque o filme é uma fábula e por isso mesmo não é para ser levado à sério.

É um filme bem divertido e bonito, basta entrar no espírito, não esperar demais, aproveitar o visual e tentar resgatar o seu lado naïf. E o final? Ah, eu acho que vocês já sabem como o é o final.

Texto originalmente publicado no Azul Calcinha em 2005. – Imagens: copyright © 2005 Dimension Films

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