O sangue de um poeta

Le Sang d'un Poète

Há quem goste de comparar cinema com poesia, ou dizer que tal filme é poético ou poesia em movimento. Eu sou uma dessas, mas raras vezes fiz isso. Basicamente porque poucos filmes têm intenção de serem poéticos, a maior parte quer entreter, contar uma história, assustar o espectador, fazê-lo rir, chorar ou pensar. Não vejo problema algum nisso, Hitchcock não é poesia, é cinema puro e do melhor tipo. Há ainda aqueles filmes que são lindos visualmente, de encher os olhos, mas que, a meu ver, não são poesia.

O filme de Jean Cocteau O Sangue de um poeta é poesia pura. É estranho, é enigmático, é cheio de simbolismos e por isso é poesia para mim. E já vou dizendo: não é para qualquer um. Não estou falando de um público seleto nesse caso, e sim de preferência. Se você não tolera os filmes “bizarros” – eu não acho, os outros falam isso para mim – de Luis Buñel pode parar de ler e ir ver outra coisa: esse filme não é para você. Eu, como boa fã de filmes não convencionais, adorei o filme.

Antes que alguém pergunte se eu entendi o filme aqui vai a resposta: do meu modo sim. Filme surrealistas, como é o caso desse, não são feitos para terem uma única interpretação, assim como boa parte dos filme de David Lynch. São filmes para serem decifrados, são cheios de símbolos, metáforas e cada pessoa tem uma interpretação de seus significados. Há o senso comum sim, porém, eles são obras abertas.

Para mim O Sangue de um poeta é um filme sobre a difícil arte de criar, sobre o dilema que o artista tem com sua obra, sobre a relação de apego e repulsa com o que cria, sobre o sofrimento do processo criativo, sobre o papel da imaginação na criação e sobre a violência implícita no questionamento da arte. Mas isso é a minha conclusão depois de ver o filme uma única vez, não fazer anotação alguma e não refletir sobre isso. Aos que gostam de “viajar” em um cima de um filme, aqui está um prato cheio. Dá quase para fazer uma tese. Bom, em cima das obras de Cocteau com certeza dá.

Uma das frases iniciais do filme e que serve como uma descrição do que ele é é: the power of metaphor and the relationship between art and dreams, it’s a realist documentary of unreal events. Vai dizer que isso não é poesia? Cocteau dedicou o filme à memória dos artistas Pisanello, Paolo Uccello, Piero della Francesca, Andrea del Castagno, aos quais chamou de pintore de insígnias e enigmas. O filme é isso: uma seqüência de insígnias e enigmas. Outra frase dita por Cocteau que serve como caminho para descrição e compreensão é: “Poets . . . shed not only the red blood of their hearts but the white blood of their souls.

Dirigido, escrito e estrelado por Cocteau, esse é um autêntico filme de autor. Mesmo que o termo tenha sido cunhado pelo grupo da Nouvelle Vague, esta é outra ótima descrição para ele. Para se ter uma idéia do quanto esse filme pode ser chamado de filme de autor, basta dizer que Cocteau não era apenas um cineasta; ele foi também poeta, escritor de ficção, dramaturgo, designer e agente de boxe. Quem quiser ler um texto de análise sobre o filme ou apenas mais informações aqui vão alguns links: The Missing Link e Jean Cocteau Website.

Algumas resalvas antes do filme: os intertítulos estão em inglês, mas o filme é em francês e não é mudo – foi realizado em 1930. Ok, nada de pânico: não há muitas falas, se você souber francês é muito melhor, mas se não souber não será um problema para compreendê-lo. Como disse, é um filme poético, e as imagens são a base do filme, as falas são um “adendo” por assim dizer. Agora que os devidos recados foram dados, se você ficou aqui até o final do texto espero que aprecie o filme.

Atualização: pas de vidéo! O filme não está mais disponível e por enquanto não há planos de colocar outra versão por lá. Espero que tenham aproveitado!

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